23/03/2017
UMA BREVE HISTÓRIA DA DISTRIBUIÇÃO CANALIZADA DA ÁGUA NA CIDADE DO PORTO(texto de JOSÉ MANUEL LOPES CORDEIRO, para a exposição Porto d'Água de 2001)
Embora abarque um período cronológico vasto, desde os finais da Idade Média até à actualidade, esta história está em grande parte centrada naquele que constituiu o aspecto primordial da história do abastecimento domiciliário de água ao Porto, a central de captação e elevação de águas do rio Sousa e a primitiva rede de distribuição de água que foi instalada na cidade, inaugurada em Outubro de 1886. Foi, precisamente, com base num contrato estabelecido em 1882 com a Compagnie Générale des Eaux pour l'Étranger que a cidade do Porto viu resolvido o problema do abastecimento domiciliário de água, uma necessidade básica com a qual já se confrontava há algum tempo, fruto do considerável crescimento populacional registado desde ainda antes de meados do século XIX. De facto, se a população da cidade aumentou mais de 100 por cento num período de cinquenta anos, de 1820 a 1878, desde esta data até ao final do século irá continuar a aumentar, passando dos 105.838 para 169.955 habitantes, ou seja, registando um crescimento de cerca de 63 por cento.Para fazer face a esta situação, e depois de uma série de pedidos de concessão e de projectos que não tiveram concretização - entre estes, o do engenheiro francês Eugène Henri Gavand, que, em 1864, apresentou um projecto que pela primeira vez propunha a utilização das águas do rio Sousa para abastecimento da cidade -, o projecto definitivo foi adjudicado em 27 de Julho de 1882, após a realização de um concurso internacional, à referida Compagnie Générale des Eaux pour l'Étranger, uma empresa parisiense com alargada experiência neste domínio, em virtude de anteriormente já ter contratado o fornecimento de água em muitas cidades europeias. Após a redacção das cláusulas do contrato definitivo, que exigiu "longas e laboriosas" negociações, a companhia dispôs de um ano para elaborar os estudos necessários e apresentar à Câmara Municipal do Porto o projecto definitivo. Os trabalhos de construção de todo o sistema decorreram entre Fevereiro de 1884 e Maio de 1886, iniciando-se o serviço público em Janeiro do ano seguinte.A solução adoptada pela Compagnie Générale des Eaux pour l'Étranger para organizar a distribuição de água à cidade do Porto foi praticamente idêntica à apresentada por Eugène Gavand em 1864. Assim, o local que veio a ser definido para a instalação da captação de água, assim como a central elevatória, foi cuidadosamente escolhido, situando-se próximo da foz do rio Sousa, cerca de três quilómetros antes de se lançar no Douro, 500 metros acima do ponto máximo da acção das marés vivas, e 500 metros abaixo do seu principal afluente, o rio Ferreira. Este fornecia ao Sousa, no ponto da tomada da água, um apreciável volume adicional daquele precioso líquido, calculado então em cerca de um terço do seu caudal. Um aspecto importante então tido em consideração residia no facto de as águas do rio Sousa, no local da captação, estarem situadas a uma cota média de 4,5 metros acima do nível do mar, e o ponto mais elevado da cidade, tomando como base o rés-do-chão das habitações, se situar à cota de 145 metros. Daí a obrigatoriedade do recurso a máquinas elevatórias. No entanto, a fim de evitar que estas se vissem obrigadas a elevar toda a água para um ponto tão elevado, e porque a zona alta da cidade era então constituída por um número limitado de fogos, a elevação foi dividida em "dois andares": toda a água chegaria a um primeiro grande reservatório, que se situaria à cota de 125 metros, satisfazendo assim as necessidades da parte mais densa e populosa do Porto, sendo o seu trajecto percorrido por gravidade. Simultaneamente, uma parte da água seria novamente elevada para um reservatório mais pequeno, situado à cota de 161 metros, de modo a completar o abastecimento à zona mais alta da cidade.O percurso que a água seguia, desde a sua captação até à chegada à cidade, foi definido da forma mais lógica e económica. Após a sua captação e filtragem, a água seria elevada sobre o monte de Jovim, o qual seria atravessado por um túnel reservatório (cota de 140,30 metros), permitindo assim a adução por gravidade, em conduta forçada, ao reservatório de chegada (cota de 125 metros) da cidade. A distribuição da água foi então dividida em três zonas: superior, média e inferior. A zona superior, compreendida entre as curvas de nível 100 e 145 metros, era abastecida pelo reservatório do monte dos Congregados, situado a uma cota de 161 metros. A zona média de distribuição, compreendida entre as curvas de nível de 100 e 40 metros, era abastecida pelo reservatório de chegada, o reservatório de Santo Isidro. Deste, partia também a água para o reservatório da Foz, destinado a abastecer a zona inferior da cidade, sendo, no entanto, necessário cortar a pressão da água, fazendo-a sair em jacto numa fonte - que a companhia francesa anunciava como "monumental" - construída para o efeito, à cota de 87 metros, e situada na então denominada Praça dos Voluntários da Rainha, actual Praça de Gomes Teixeira. Esta fonte, desde então conhecida pela "fonte dos leões" - e onde os simpáticos carnívoros colaboram na tarefa de cortar a pressão da água - confere igualmente àquela praça a sua denominação popular. O reservatório da Foz satisfazia o abastecimento de toda a parte inferior da cidade, permitindo também a extensão da canalização e da distribuição da água a Matosinhos e a Leça da Palmeira, o que veio a acontecer posteriormente.A exposição que presentemente se encontra na sala-museu do ISEP ilustra, de uma forma notável, os aspectos atrás referidos. Concebida de uma forma sóbria mas bastante ef**az, com uma museografia adequada ao tratamento do tema - o visitante entra na exposição passando por um conjunto de tubos metálicos de canalização de água que transmitem uma ideia muito real daquele tipo de ambientes, e todo o percurso expositivo é acompanhado pelo refrescante som de água a correr -, a exposição inicia-se com a apresentação de um conjunto de documentação sobre os primórdios do abastecimento de água à cidade, antes da instalação do sistema de distribuição domiciliária. Um ponto alto desta fase inicial da exposição reside na apresentação de um pequeno vídeo que ilustra o percurso subterrâneo da água que anteriormente abastecia a rede de fontes e fontanários, desde o manancial de Paranhos até à Praça do Coronel Pacheco.É, contudo, no núcleo consagrado à construção do primitivo sistema de distribuição domiciliária de água que encontramos alguns dos materiais mais interessantes proporcionados por esta exposição, e que são pela primeira vez apresentados ao público. Entre eles figura uma impressionante planta topográf**a, desenhada em 1884, com a passagem do traçado da condução das águas, do rio Sousa à cidade do Porto, percorrendo uma distância de 11,130 quilómetros. A finalizar o núcleo respeitante ao período em que a distribuição de água esteve a cargo da companhia francesa, o visitante encontra também vários documentos inéditos, entre os quais uma fotografia assinalando o momento crucial da assinatura do resgate da concessão - centrais, reservatórios, canalização, etc. - pela Câmara Municipal do Porto, efectuada em 9 de Maio de 1927, e que na época envolveu uma verba de 3500 contos.De facto, durante os quarenta anos em que a companhia francesa manteve a concessão da distribuição de água à cidade, tinham sido vários os problemas levantados pela sua gestão. Estes tinham-se agravado nos últimos anos, em grande parte por causa da redução de meios com que aquela empresa se defrontava desde os finais do primeiro conflito mundial, traduzindo-se num progressivo abandono a que então foi votado todo o sistema de distribuição de água. As sucessivas falhas no cumprimento do contrato - nomeadamente quanto à garantia de fornecimento do indispensável volume de água por dia e por habitante, de forma a satisfazer as necessidades existentes - levaram a autarquia a denunciar o contrato, municipalizando todo o sistema.
P.S.-Claro que ainda não se menciona a PortoSOScasa, como empresa de serviços de emergência na área da pichelaria, porque só "nascemos" uns hábitos mais tarde!