14/05/2014
Este post vai servir para vos ilucidar um pouco sobre a história de alguns carros míticos que nos ''assombraram'' os pensamentos enquanto amantes de carros.
Vamos tentar fazer pelo menos um todas as semanas.
Gostavamos que também nos sugerissem alguns carros que gostam para pormos aqui.
KEEP UP
HISTÓRIA DA DIVISÃO M E DO BMW 2002 TURBO
Vamos então recuar à década de 60′, época em que a oferta automóvel alemã ao nível das marcas generalistas ainda reflectia a depressão do pós-guerra. Os automóveis espelhavam o estado de alma dos alemães: eram todos aborrecidos e sérios. Se eram bons meios de transporte? Sem dúvida. Confortáveis e fiáveis? Também. Mas não eram mais que isso.
A alternativa a este quadro deprimente tinha alguns custos. Ou se optava pelos pouco fiáveis carros ingleses ou então pelos «raçudos» mas diminutos desportivos Italianos.
Foi então que a BMW – acrónimo de Bayerische Motoren Werke, ou em português Fábrica de Motores Bávara – depois de anos e anos a construir aviões, motos e alguns carros decidiu entrar em força no mercado automóvel. Em boa hora o fez. E fê-lo com o modelo 1500, que era tudo aquilo que as outras berlinas contemporâneas daquele segmento não eram: fiáveis, relativamente despachadas e moderadamente espaçosas. O 1500 conseguia levar cinco adultos com algum conforto e foi com base neste modelo que nasceram os modelos 1600, 1602 e toda a família 2002 ti, tii e Turbo. E é este último, o 2002 Turbo, que é motivo desta viagem ao passado.
Resumindo em poucas palavras, o BMW 2002 Turbo foi uma criação disparatada, um autêntico exercício de loucura, mas era tudo isto e muito mais. Baseado na estrutura do BMW 1602 e com recurso ao bloco do 2002 tii, o 2002 Turbo contrariava todas as convenções estabelecidas. Eram menos de 900kg de peso para 170cv às 5800rpm – Isto na década de 60! Potência esta que era “gentilmente” fornecida por um motor de 4 cilindros, de somente 2000cc alimentados por um turbo K*K a 0,55bar sem dump-valve e injecção mecânica Kugelfischer. Como dizem os brasileiros: Nossa!
Este foi alias, o modelo que pela primeira vez trouxe para a produção em série a sobrealimentação. Até então nenhum carro tinha montado um turbo. Recordo que a sobrealimentação era uma tecnologia que desde a sua génese estava reservada à aviação, pelo que até faz algum sentido que tenha sido a BMW – tendo em conta as suas origens aeronáuticas – a pioneira na aplicação desta tecnologia à industria automóvel.
Toda esta miscelânea de tecnológica teve como consequência números que até nos dias de hoje envergonham muitos desportivos: 0-100km/h cumpridos em 6.9 segundos e uma velocidade de ponta a «aflorar» os 220km/h. Como estes não fossem ingredientes suficientes para fazer disparar os níveis de adrenalina , toda esta potência era «escoada» pelo eixo traseiro, através de uns pneus tão pequenos que eram capazes de rivalizar com as medidas de um carrinho de bébé, uns “gigantes” 185/70 R13.
Mas a loucura não ficou por aqui – alias, ainda agora começou. Esqueçam os turbos de geometria variável, os motores com entrega de potência dócil e os aceleradores ride-by-wire, o 2002 Turbo era um carro rude com duas faces: dócil como educadora de infância até às 3800rpm’s e a partir daí bruto e rude como uma sogra mal disposta. E que sogra! Este comportamento bi-polar devia-se à presença de um turbo e do consequente efeito «turbo-lag». Enquanto o turbo não entrava em funcionamento tudo ok, mas daí para a frente… desviem-se. Vai começar o festival da potência e da borracha queimada.
Mas não pensem que o 2002 Turbo era só um motor potente numa carroçaria BMW. O 2002 turbo era o “state-of-art” do design desportivo da época. Todo o carro transpirava desportividade: travões maiores, cavas de rodas mais largas e diferencial traseiro auto-bloqueante faziam parte de um pacote que incluía volante e assentos desportivos, manómetro de turbo, spoiler dianteiro e traseiro pronunciados e por fim faixas azuis e vermelha ao longo do carro. Sim, leram bem: faixas azuis e vermelhas.
Não vos recorda as cores de nada? Exactamente, as cores da M! Estava então lançadas as cores que iriam acompanhar a linha desportiva da BMW até aos dias de hoje.
Mas o toque final de loucura, e que confirma o estado de embriagues da administração da BMW quando aprovaram a produção do 2002 Turbo está na inscrição da designação do modelo no spoiler dianteiro de forma invertida como vê-mos nas ambulâncias. Dizia-se na altura que era para que os outros condutores distinguissem o 2002 Turbo dos outros modelos da gama e o deixassem passar. Sim isso mesmo, para se desviarem! A diferença de perfomances do 2002 Turbo para os outros carros era tanta que literalmente os atirava para a valeta.
Alias, conduzir um 2002 Turbo baseava-se nessa filosofia: atirar os outros carros para a valeta, cruzar os dedos e cerrar os dentes para não ir lá parar por arrasto. Um carro para homens de barba rija e pêlo no peito portanto…
Apesar de todos os atributos e “defeitos” o reinado do BMW 2002 Turbo foi sol de pouca dura. A crise petrolífera de 70′ deitou por terra qualquer aspiração comercial que o modelo tivesse, e um ano depois de ter entrado em comercialização o 2002 “consumidor-compulsivo-de-gasolina” Turbo deixou de ser produzido, corria o fatídico ano de 1975. Mas ficou a marca. A marca de um modelo que foi pioneiro na utilização da sobrealimentação e que lançou as sementes que deram origem à “M”.
Há quem atribua ao BMW M1 de 1979, o título de “primeiro M”, mas para mim não há dúvida que o pai legitimo da M é o 2002 Turbo. E o seu legado perdura nos mais icónicos modelos da BMW: o Serie 1 M, o M3 e o M5.
Regressando ao presente, não há dúvida que temos muito que agradecer ao velho e rabugento 2002 Turbo. Longa vida à divisão M! Que a divisão desportiva da BMW nos continue a oferecer modelos tão marcantes como este no futuro. Não é pedir pouco…
Texto: Guilherme Ferreira da Eduardo Costa
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